Mãe depois dos 35

Ana Coelho Lima sentiu-se numa «verdadeira corrida contra o tempo». Começou a tentar engravidar perto dos 33 anos, quando já tinha a vida profissional resolvida, «sem pressas, sem pressões». Dois anos depois foi ao médico e aos 36 anos chegou à primeira consulta de infertilidade. Seguiram-se sete ciclos de tratamento, muita ansiedade e muita confiança. «Sentia-me muito bem fisicamente e achava que desde que conseguisse engravidar tudo iria correr bem.» Assim foi. A boa notícia surgiu quando Ana tinha 39 anos e, nove meses depois, já Ana tinha feito 40, nasceu a Mariana. «Perfeitamente saudável, com quatro quilos.» A gravidez decorreu sem problemas e não foi considerada de risco. A idade, na sua opinião, só trouxe vantagens: «Uma mãe aos 20 não tem a mesma disponibilidade, nem a mesma maturidade. Mentalmente estou muito disponível para a Mariana». E a sensação é de prolongamento da juventude: «Não senti peso nenhum por fazer 40 anos. E quando os pais que tiveram os filhos mais cedo começarem a vê-los sair de casa, eu ainda vou ter uma criança. Acho que isso me fará sentir ainda mais jovem».

A infertilidade é um dos maiores receios das mulheres que querem adiar a gravidez. A doença pode já existir, mas sendo descoberta mais tarde, as probabilidades de sucesso de tratamento diminuem. Além disso, com o avançar da idade a fertilidade desce. «Os estudos mostram que a taxa natural de concepção é máxima entre os 22 e os 30 anos», esclarece Mário de Sousa. O investigador do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar e do serviço de genética da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto sublinha, no entanto, que, depois desta idade, «a fertilidade diminui, mas não é impossível engravidar». O decréscimo acontece porque a mulher já nasce com toda a sua reserva ovárica, que se vai gastando ao longo dos anos. Segundo um estudo recente publicado no Public Library of Science One, aos 30 anos, uma mulher já só tem 12 por cento do número de óvulos com que nasceu.

O envelhecimento dos óvulos é outro obstáculo para uma mulher que queira ser mãe depois dos 35 anos, como explica Mário de Sousa: «Ao contrário do testículo, onde as células germinais são de novo produzidas, nos ovários, a mulher já nasce com todos os folículos primordiais, que apenas crescem todos os meses durante o ciclo menstrual. Ou seja, os ovócitos que crescem num determinado mês já estavam parados no ovário desde o nascimento. Portanto, têm a mesma idade da mulher. Este tempo parado dá origem a erros genéticos e anomalias morfológicas  que comprometem a qualidade dos ovócitos». Por isso, sobem a probabilidades de aneuploidias – alterações no número de cromossomas causadas por erros nas divisões celulares – que dão origem às trissomias. O risco de ter um bebé com trissomia 21, por exemplo, é de uma em cada 250 gravidezes aos 30 anos e de uma em cada 100 gravidezes aos 40 anos.

As mulheres que engravidam depois dos 35 anos têm também mais riscos de ter uma diabetes gestacional ou hipertensão, doenças que podem ser graves. Mas, como desdramatiza Luís Graça, a maior parte das mulheres que têm filhos depois dessa idade não têm qualquer problema. O presidente do Colégio de Obstetrícia e Ginecologia da Ordem dos Médicos faz uma analogia com a velocidade de condução: «Se andarmos a mais de 120 quilómetros por hora não é certo que vamos ter um acidente, mas à medida que aumentamos a velocidade as probabilidades de despiste aumentam. O mesmo se passa com a idade materna, os riscos vão aumentando progressivamente».

Recentemente, o Colégio Britânico de Obstetrícia e Ginecologia emitiu uma recomendação apelando às mulheres que tivessem filhos entre os 20 e os 35 anos, considerando ser esse «o período biológico ideal» para engravidar. A partir desta idade, defende a organização, multiplica o risco de problemas como o aborto, partos prematuros e complicações durante a gravidez.

Luís Graça concorda que o intervalo «entre os 20 e os 35 anos é a idade de procriação mais aconselhada», mas sublinha que todo o processo «é um contínuo». O obstetra prefere considerar que «entre os 35 e os 37 estamos numa zona de transição de risco». Para restringir as probabilidades de complicações, a recomendação é para planear a gravidez com cuidado. «Deve fazer-se um exame ginecológico e mamário, rastreio do cancro do colo do útero, rastreio de infecções como rubéola, toxoplasmose, etc., análises ao sangue. Ou seja, entrar na gravidez com todos os parâmetros normais». Claro que, como sublinha o médico, estes cuidados devem existir também nas mais mulheres mais novas, mas nas mais velhas estes exames são ainda mais importantes.

Em relação ao parto, Luís Graça também desvaloriza o peso da idade. «Numa gravidez normal, uma mulher de 35, 36 ou 40 anos tem a mesma probabilidade de ter um parto vaginal do que uma mulher de 25 anos». A idade, defende o obstetra, não justifica uma cesariana: «A taxa de cesarianas pode ser maior em mulheres mais velhas por ter surgido uma complicação durante a gravidez que poderá levar a uma cesariana. Mas, fora esses casos, deve ser dada uma oportunidade à mulher de fazer uma prova de parto».

Em jeito de conclusão, o presidente do Colégio de Obstetrícia e Ginecologia da Ordem dos Médicos aconselha: «Se uma mulher decide ter um filho aos 35 ou 37 anos não deve ter receio disso. Deve preparar-se devidamente, ser seguida por gente competente e ter o parto em meio hospitalar».


AS RAZÕES DO ADIAMENTO

Raquel Cruz, 35 anos, preparava-se para adiar a maternidade «mais um ou dois anos», quando descobriu que estava grávida. «De início foi um choque – a relação ainda era recente – mas depois fiquei muito feliz», conta. O plano era ter filhos até aos 40 anos. «Sou muito independente, gosto de viajar e nunca tinha estado numa relação que me fizesse pensar em ter filhos», justifica. Os 35 anos não foram encarados como um problema. «O obstetra mostrou-se sempre muito tranquilo e desmitificou completamente qualquer questão relacionada com a idade.» Raquel, agora nas 25 semanas de gravidez, garante que «nunca pensa nos 35», até porque tem mais amigas que foram mães com a mesma idade. «Para mim, acho que a gravidez veio na altura certa, estou mais madura e mais preparada para as mudanças que aí vêm».

Raquel é o exemplo do pensamento de muitas mulheres actualmente, que, como descreve a psicóloga clínica Vanessa Neves Nunes, estão «confiantes para contornar o seu relógio biológico com a ajuda da ciência». A psicóloga, autora de uma tese de mestrado sobre maternidade tardia, no âmbito do estudo «Família e Parentalidade», da Unidade de Investigação em Psicologia e Saúde do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, explica que a decisão de adiar a maternidade é habitualmente «fundamentada com aquilo a que podemos chamar de “parentalidade consciente”». Ou seja: é esperado que os casais «disponham de um conjunto de recursos materiais, psicológicos e sociais antes de se tornarem pais». Algumas pessoas só desejam ser pais «depois de “tudo”», enquanto para outras «o desejo de ter filhos é compatível com outras decisões – porque faz parte», explica.

O adiamento da gravidez, sugere a psicóloga, está também relacionado com «um atraso na realização de tarefas psicossociais que assinalam a transição para a fase adulta», resultado do alargamento do «período de dependência instrumental e emocional dos pais».

Vanessa Cunha, socióloga e investigadora do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE), refere também o adiamento das «etapas da vida», como parte da explicação para o adiamento da maternidade: «O sentir-se adulto, hoje em dia, acontece cada vez mais tarde. Os 30 de hoje são os 20 de ontem». E há todo um conjunto de alterações sociais que tem contribuído para que assim seja: «A escolarização é mais longa, a entrada no mercado de trabalho acontece mais tarde, a necessidade de estabilidade económica e de alojamento», enumera a investigadora, autora do livro o Lugar dos Filhos, lembrando: «A ideia de que tudo se cria está desfasada da nossa sociedade». E é por isso que a opção de ter os filhos mais tarde não pode ser vista como um acto de egoísmo: «Não é nada egoísta, pelo contrário. Os filhos são cada vez mais um projecto planeado e estruturado que tem de fazer sentido. Os pais sabem que não é só vesti-los e dar-lhes de comer. É preciso garantir-lhes um bem-estar emocional. É uma empreitada e implica condições».

Condições que, dificilmente, chegarão antes dos 35 anos. «O adiamento da maternidade é uma conquista para as mulheres. Pela primeira vez, têm a opção de terem filhos quando quiserem, devido à existência de uma contracepção segura. Pela primeira vez, podem ter uma experiência de conjugalidade antes de engravidarem», argumenta Vanessa Cunha, lembrando que antigamente, as mulheres também não queriam ter tantos filhos e, provavelmente, não os queriam ter tão cedo, «mas fazia tudo parte do pacote família».

AS CONSEQUÊNCIAS

Mas o adiamento da gravidez pode não ter só vantagens. Além do aumento dos riscos de infertilidade e de complicações na gravidez, Vanessa Cunha refere ainda o fenómeno «filho único» como «consequência» do desfasamento entre biologia e sociologia. O desejo da maior parte dos portugueses, segundo estudos citados pela investigadora, é ter dois filhos, de preferência um casal. «Que é a reprodução do próprio casal», justifica Vanessa Cunha. Um projecto que, muitas vezes, fica pelo caminho porque o primeiro filho já surge muito tarde, mas também porque «todo o esforço para ter o segundo filho, acaba por ir adiando o projecto», que acaba por nunca se concretizar. Um problema de «difícil resolução», ao qual os poderes políticos terão de prestar mais atenção: «Nenhuma medida vai fazer as pessoas terem quatro filhos, porque não é esse o ideal da maior parte das famílias. Mas é preciso dar condições para que possam ter dois, o sonho da maior parte dos casais».

Na sua investigação para a tese de mestrado, Vanessa Nunes Neves encontrou outra consequência do adiamento da maternidade: «Os pais tardios tendem a ser sobre-protectores, promovendo a dependência parental e o isolamento social, contribuindo, a longo prazo, para sentimentos de “não-pertença” dos filhos». Para contrariar esta tendência, a psicóloga clínica defende ser «essencial promover a autonomia e a socialização da criança, não a circunscrevendo ao contacto familiar, possibilitando o contacto com os pares». Para os pais, o conselho é semelhante: «Devem investir na rede de contactos sociais, constituída por familiares, amigos, colegas de trabalho e vizinhos, recorrendo ao seu apoio ou simplesmente partilharem experiências com outros pais, transformando a inquietude em plenitude e vivenciando a parentalidade com tranquilidade e satisfação».



AMNIOCENTESE DEPOIS DOS 35 ANOS

«A partir dos 35 anos deve ser oferecido à mulher um método de diagnóstico, como a amniocentese ou a biopsia das vilosidades coriónicas, e não um método de rastreio. Além de todos os esclarecimentos sobre cada método», defende Luís Graça, presidente do Colégio de Obstetrícia e Ginecologia da Ordem dos Médicos. «O rastreio dá-nos a noção global do risco, o diagnóstico dá-nos a certeza de existir ou não uma doença», explica. Com a agravante de que os falsos negativos no rastreio pré-natal aumentam com a idade, uma vez que este teste apenas estabelece fronteiras de risco, que estão muito bem determinadas para mulheres jovens. No caso das mulheres mais velhas, a base de dados existente ainda não é suficiente para afinar os critérios. «Aos 40 anos, por exemplo, a probabilidade de um rastreio ser falso negativo ultrapassa os 10 por cento», diz Luís Graça. No entanto, a opção de fazer ou não a amniocentese ou a biopsia das vilosidades coriónicas deverá ser do casal, já que ambas as técnicas têm alguns riscos.



IDADE MATERNA SEMPRE A AUMENTAR  

Nos últimos anos, o adiamento da maternidade tem vindo a ser cada vez mais significativo. Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), entre 2004 e 2008, a idade média da mãe no nascimento do primeiro filho subiu quase um ano: de 27,5 para 28,4 anos.

Os registos do INE indicam ainda que a maior parte dos partos realizados em 2008 (34,5 por cento) ocorreram em mulheres entre os 30 e os 34 anos. Enquanto em 1998 a grande fatia dos partos (33,4 por cento) pertencia a mulheres com idades entre os 25 e os 29 anos.

Idade média da mãe ao nascimento do primeiro filho:

2008 …… 28,4
2007 …… 28,2
2006 …… 28,1
2005 …… 27,8
2004 …… 27,5
1975 …… 24



ADIAR ATÉ QUANDO?

A ciência parece preparada para ajudar as mulheres a serem mães cada vez mais tarde. Têm sido notícia as milheres que têm filhos depois dos 60. O recorde de mãe mais velha está agora na indiana Omkari Panwar, que deu à luz duas gémeas aos 70 anos, em 2008, depois de um tratamento de fertilidade.

Antes, já tinham sido notícia a espanhola Carmela Bousada, por ter sido mãe aos 66 anos e 358 dias, em 2006, e a romena Adriana Iliescu, mãe aos 66 anos e 320 dias, em 2005. Ambas com ajuda médica.

Em Portugal, a ministra da Saúde, Ana Jorge, anunciou que ainda durante este ano as mulheres até aos 42 anos com indicação médica para recorrer a tratamentos de Procriação Medicamante Assistida poderão aceder a técnicas de primeira linha – indução de ovulação e inseminação intra-uterina – enquanto as mulheres até aos 40 poderão recorrer a técnicas de segunda linha – fertilização in vitro (FIV) e injecção intra-citoplasmática (ICSI). Para Mário de Sousa «é justo tentar ver se o ovário ainda responde com um número e uma qualidade boa de ovócitos».

E, na opinião do cientista, a tendência será para as mulheres (e os homens) continuarem a adiar a data da gravidez, «excepto se os pais as puderem suportar economicamente para terem filhos mais cedo».